No âmbito do 10º Congresso Rodoferroviário Português, a PRP elaborou um artigo que pretende contribuir para um melhor conhecimento relativamente aos padrões de mobilidade, à perceção de segurança e à sinistralidade rodoviária com diferentes meios de transporte em Portugal, bem como do posicionamento de país em relação a outros países europeus.

São apresentados dados do E-Survey on Road Users’ Attitudes (ESRA – www.esranet.eu) relativos à utilização de meios de transporte e perceção de segurança em Portugal e em outros 22 países europeus (dados de 2018) [2,3]. São também apresentados dados da sinistralidade rodoviária com automóveis, peões, bicicletas e veículos de 2 rodas a motor em Portugal e noutros 29 países europeus – dados do Observatório Europeu de Segurança Rodoviária (dados de 2017 a 2019) [4]. É ainda explorada a relação das taxas de sinistralidade com as taxas de utilização dos meios de transporte e com os níveis de perceção de segurança em cada país.

Nos últimos anos tem existido um incentivo para as cidades europeias conseguirem um equilíbrio mais sustentável na utilização dos meios de transporte, incentivando as deslocações a pé, a utilização da bicicleta e dos transportes públicos. Por outro lado, tem existido um desincentivo à utilização de transportes individuais motorizados, sobretudo o automóvel.[1]

Em termos de mobilidade, em Portugal, as maiores alterações verificadas nos últimos anos registaram-se nos níveis de utilização de bicicletas, de motociclos e de trotinetas elétricas (nos anos mais recentes) – com consequências na sinistralidade rodoviária.

Entre 2010 e 2019 o número de motociclos segurados em Portugal aumentou 86% (dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões – ASF) a que correspondeu um aumento da sinistralidade com estes veículos: o número de motociclistas feridos leves aumentou 107% e os feridos graves aumentaram 64% (dados da ANSR).

O aumento da utilização de bicicletas como meio de transporte ou lazer tem-se também refletido na sinistralidade rodoviária: entre 2010 e 2019 o número de feridos leves aumentou 88% e o de feridos graves aumentou 58% (dados da ANSR). Relativamente às trotinetas elétricas, a falta de dados não permite quantificar nem o nível de utilização em Portugal nem a sinistralidade rodoviária com estes veículos.

Os resultados mostram que, entre os 23 países europeus do ESRA, Portugal é o país com mais utilização do automóvel como principal meio de transporte, tanto como condutor como na utilização conjunta como condutor ou passageiro – 75.6% dos portugueses referiram deslocar-se de automóvel pelo menos 4 dias por semana. Pelo contrário, Portugal é o país com menos utilização da bicicleta, com percentagem 10 vezes inferior à registada nos Países Baixos (3.5% vs. 35.6%) – país com maior percentagem autodeclarada da utilização da bicicleta pelo menos 4 dias por semana.

A percentagem de utilização de transporte públicos pelo menos 4 dias por semana em Portugal é próxima da média europeia (16.4% vs. 17.0%, respetivamente). Portugal aparece com percentagens acima da média europeia na utilização de veículos de 2 rodas a motor (4.8% vs. 3.8%) e abaixo da média europeia nas deslocações a pé (58.8% vs. 65.7%) e na utilização de outros veículos de transporte pessoal motorizado (0.9% vs.1.4%).

Relativamente à sinistralidade rodoviária, Portugal destaca-se como o segundo país europeu com maior sinistralidade nos veículos de 2 rodas a motor, com 15.1 vítimas mortais por milhão de habitantes – valor apenas inferior ao registado na Grécia (22.1) e muito superior à média europeia (9.1). O número de vítimas mortais por milhão de habitantes em Portugal nos utilizadores de automóveis (28.5 vs. 23.0 na Europa) e nos peões (14.3 vs. 10.4 na Europa) era também superior à média europeia. Pelo contrário, o número de ciclistas mortos por milhão de habitantes em Portugal (2.6) era inferior à média europeia (4.4). Os resultados mostram também que países onde a utilização de bicicletas e de veículos de 2 rodas a motor é mais frequente tendem a ter taxas de sinistralidade veículos.[5]

REFERÊNCIAS
1. European Commission (2022). Sustainable urban development. Acedido em abril de 2022 [https://ec.europa.eu/regional_policy/en/policy/themes/urban-development/#:~:text=The%20Urban%20Agenda%20is%20an,of%20life%20in%20urban%20areas]
2. U. Meesmann, K. Torfs, W. Van den Berghe (2019). ESRA2 methodology. ESRA2 report Nr. 1. ESRA project (E-Survey of Road users’ Attitudes). Brussels, Belgium: Vias institute.
3. C. Pires, K. Torf, A. Areal, C. Goldenbeld, W. Vanlaar, M-A. Granié, Y. Stürmer, D. Usami, S. Kaiser, D.Jankowska-Karpa, D. Nikolaou, H. Holte, T. Kakinuma, J. Trigoso, W. Van den Berghe, U. Meesmann (2020). Car drivers’ Road safety performance – a benchmark across 32 countries. IATSS Research, Vol.44, Issue 3,October 2020, pages 166-179.
4. European Commission (2021). Annual statistical report on road safety in the EU 2020. European Road Safety Observatory. Brussels, European Commission, Directorate General for Transport.
5. ETSC (2020). How safe is walking and cycling in Europe? (PIN Flash 38). European Transport Safety Council, Brussels, Belgium.
Leia o estudo na íntegra