Canadá - Condução sob efeito do Álcool

Novo relatório revela aumento dramático nos comportamentos
de condução sob influência do álcool no Canadá durante 2025

A segurança rodoviária enfrenta um retrocesso preocupante. Um novo relatório revela um aumento dramático nos comportamentos de condução sob influência do álcool no Canadá durante 2025, com tendências que repercutem mundialmente e devem servir de alerta para autoridades e condutores europeus.

Os números revelam uma realidade alarmante

Entre 2021 e 2022, o número de canadianos mortos em acidentes que envolveram condutores alcoolizados aumentou de 457 para 521, um aumento de 14% que quebra anos de progressão positiva. Porém, o que torna estes dados ainda mais preocupantes é o padrão comportamental emergente em 2025. ​

Mais de um em cada seis condutores canadianos (15,4%) confessaram ter conduzido após consumir álcool nos últimos 30 dias, representando um aumento significativo face aos 11,4% registados em 2024. Mas o indicador mais grave surge quando se analisa a condução manifestamente alcoolizada: 9,2% dos condutores admitiram ter conduzido quando acreditavam estar acima do limite legal permitido, quase duplicando a percentagem anterior de 5,9%.

Estes números não são coincidência nem variação estatística. Representam uma mudança comportamental que reflete problemas estruturais na forma como as sociedades encaram o risco.

A ilusão da segurança: como a complacência mata

Um detalhe surpreendente emerge da pesquisa: enquanto o comportamento perigoso aumenta, a preocupação diminui. Apenas 71,8% dos canadianos considera agora a condução sob influência do álcool um problema muito ou extremamente grave, o pior resultado em duas décadas. Trata-se de uma desconexão perigosa entre realidade e perceção.

Como condutores, tendemos a subestimar o risco quando não o vemos fisicamente. A redução visível de campanhas de sensibilização, o enfraquecimento das operações de controlo das forças da autoridade e o regresso à “normalidade” após a pandemia criaram um vácuo onde a complacência prospera.

Há que alertar: a confiança excessiva é quase tão perigosa quanto a condução em estado de embriaguez.

Padrões de consumo regressam aos tempos pré-pandemia

Uma revelação intrigante do relatório diz respeito aos locais de consumo de álcool antes da condução. Enquanto em 2023 apenas 6,2% dos condutores alcoolizados bebiam principalmente em bares, esta percentagem saltou para 27,7% em 2025. Em paralelo, o consumo caseiro caiu abruptamente de 46,4% em 2023 para apenas 16,7% em 2025.

Esta alteração reflete uma recuperação social, as pessoas voltaram aos bares e restaurantes, mas criou um cenário logístico problemático. Quando o álcool é consumido em contexto social, fora de casa, aumenta a probabilidade de decisões impulsivas sobre a condução. Entre os condutores alcoolizados, 27,7% bebia em bares e 24,2% com amigos e família, contextos onde o julgamento sobre a capacidade para desempenhar a tarefa da condução se encontrada frequentemente comprometido.

Adicionalmente, 39,7% dos condutores que admitiu exceder o limite legal fazia-o com amigos próximos, um aumento significativo face aos 27,3% em 2024. A dinâmica grupal parece oferecer um escudo ilusório contra a responsabilidade pessoal.

Quem está em maior risco? Desmascarar os mitos

As estatísticas desmontam certos estereótipos. Embora os condutores do sexo masculino sejam 46% mais propensos a relatar condução sob influência comparativamente às mulheres, a diferença mais criticamente importante surge pela idade. Para cada aumento de 10 anos de vida, a probabilidade de conduzir quando se acredita estar acima do limite legal diminui em 32%.

Isto significa que a condução sob efeito de álcool não é um problema exclusivo de jovens adultos impulsivos. Condutores em meia-idade e séniores também representam um risco significativo, embora geralmente recebam menos atenção nas campanhas de sensibilização.

O divórcio entre dados das forças da autoridade e comportamento real

Desde 2022 que a relação histórica entre dados de comportamento autodeclarado e registos das forças de segurança não conflui. As operações de fiscalização não refletem necessariamente o número real de condutores alcoolizados nas estradas.

O que sugere que a aplicação da lei enfraqueceu ou que as estratégias das forças de segurança assumiram outras prioridades. Seja qual for a causa, o resultado é claro: menos ações de fiscalização para a deteção de álcool não significam menos risco nas estradas.

O que a investigação nos diz sobre prevenção efetiva

O relatório oferece pistas sobre estratégias que funcionam. Quando a presença policial é visível e consistente, os comportamentos mudam. O período entre 2017 e 2021 mostrou uma correlação clara entre fiscalização e redução de condução sob efeito de álcool. Durante 2023 e 2024, essa correlação enfraqueceu, justamente quando as operações foram reduzidas.

Para as autoridades rodoviárias a aplicação consistente da lei é o que promove o comportamento seguro. Para os cidadãos, a realidade é igualmente simples: sem vigilância visível, alguns deixam de considerar as consequências.

Mensagens personalizadas para um público diferente

O retorno da vida social associada ao consumo de álcool em bares e restaurantes exige uma reformulação nas mensagens de segurança. Campanhas genéricas sobre “Se conduzir, Não beba” falharam. O público atual precisa de mensagens específicas que abordem:

  • Transportes alternativos em contextos sociais: aplicações de transporte partilhado, transportes públicos noturnos e programas de condutor designado devem estar no centro das campanhas;
  • Responsabilidade coletiva: amigos têm o dever de intervir quando se verifica uma situação de risco com alguém a querer conduzir alcoolizado;
  • Desafio à complacência: a mensagem de que a condução sob efeito de álcool é “comum” e “aceitável” deve ser diretamente combatida.

A verdade sobre a Segurança Rodoviária é que o progresso não é permanente. No Canadá, os 51,7% de redução de mortes desde 1996 representaram décadas de trabalho coordenado entre a aplicação da lei, a educação e a evolução tecnológica. Mas este progresso pode evaporar-se rapidamente quando a fiscalização deixa de estar nas prioridades ao combate da condução sob efeito de álcool.

Próximos passos

Para as autoridades: reforçar a fiscalização para que seja visível no terreno e sustentar campanhas de sensibilização, focadas especificamente em bares e restaurantes;

Para os condutores: reconhecer que a responsabilidade pessoal continua a ser o fator determinante, já que nenhuma lei, nenhuma campanha evita que alguém beba e conduza, exceto a escolha consciente de não o fazer. Aplicações, transportes alternativos e condutores designados transformaram-se em ferramentas essenciais, não opcionais;

Para os amigos e família: a complacência social é cúmplice, é imperativo intervir quando alguém pretende conduzir alcoolizado, esta ação é tão importante quanto qualquer medida governamental.

A segurança rodoviária é uma responsabilidade partilhada. Os números de 2025 no Canadá mostram que se está a perder esta batalha. A questão já não é se se pode fazer melhor, é se se tem a coragem de o fazer.

Nota Editorial: Este artigo baseia-se no Road Safety Monitor 2025, relatório oficial do Traffic Injury Research Foundation (TIRF) sobre padrões de condução sob influência do álcool no Canadá. Os dados e estatísticas citadas refletem metodologia rigorosa de pesquisa com margem de erro de ±2,5% e representam comportamentos de 1.501 condutores canadianos.