
25 % das mortes na estrada estão relacionadas com o álcool
Conduzir após consumir álcool ou drogas continua a ser uma das principais causas de sinistralidade rodoviária grave. Estas substâncias afetam capacidades essenciais para a condução: tempo de reação, coordenação, atenção, vigilância ou controlo da velocidade. O risco aumenta mesmo quando o condutor acredita que está em condições para conduzir.
Trata-se de um problema complexo, já que envolve atitudes sociais, a disponibilidade das substâncias ou fatores individuais. Apesar do esforço da União Europeia em legislação, fiscalização e sensibilização, a condução sob influência mantém-se como uma ameaça séria à Segurança Rodoviária. Partilhar conhecimento e boas práticas é essencial para combater adequadamente este flagelo.
Torna-se assim imperativo analisar os principais desafios e oportunidades no combate à condução sob o efeito de álcool e drogas ilícitas.
O que dizem os dados
Avaliar com precisão o peso do álcool nos sinistros rodoviários não é simples. A fiscalização varia entre países e é, muitas vezes, insuficiente para retratar a realidade. Muitos condutores conhecem a localização das operações policiais através das redes sociais e de aplicações de navegação, o que facilita a sua evasão quando consumiram álcool.
Após um sinistro, o teste de alcoolemia não é sistemático. Normalmente só ocorre quando existe suspeita. Peões e ciclistas raramente são testados. As comparações internacionais tornam-se ainda mais difíceis devido às diferenças nos limites legais de alcoolemia.
Tendo em conta estas limitações e a subnotificação provável, a Comissão Europeia estima que cerca de 25% das mortes na estrada estejam relacionadas com o álcool. Esta estimativa baseia-se em dados de 2007 a 2009, mas estudos mais recentes apontam para valores semelhantes ou superiores.
Na Noruega, 25% das vítimas mortais apresentavam álcool ou drogas no organismo. Nos Estados Unidos e no Canadá, mais de metade das pessoas feridas ou mortas na estrada tinham consumido estas substâncias. Nestes países, o consumo de drogas surge ligeiramente acima do álcool. A Organização Mundial da Saúde indica que cerca de 20% dos condutores envolvidos em acidentes fatais em países de elevado rendimento tinham uma taxa de álcool no sangue acima do limite legal.
Existem sinais positivos. Entre 2011 e 2021, as mortes na estrada associadas ao álcool diminuíram 37% em 23 países da União Europeia, excluindo alguns Estados por falta de dados consistentes. No mesmo período, as restantes mortes rodoviárias desceram 30%. A Roménia, os Países Baixos e o Chipre registaram as reduções mais significativas.

Figura 1: Evolução relativa das mortes rodoviárias registadas devido ao álcool e de outras causas de morte rodoviária em 23 países da UE no período de 2011 a 2021. Média da UE23, excluindo a Bulgária devido à inconsistência na tendência dos dados e a Irlanda, Itália e Malta, uma vez que os dados sobre mortes rodoviárias relacionadas com o álcool não estavam disponíveis nestes países para toda a série temporal. (Fonte: ETSC)

Figura 2: Diferença entre as variações médias anuais (%) no número de mortes rodoviárias atribuídas ao álcool e a variação correspondente para outras causas de morte rodoviária no período de 2011 a 2021. (1) 2017-2021 (2) 2011-2020. Média da UE23, excluindo a Bulgária devido à inconsistência na tendência dos dados e a Irlanda, Itália e Malta, uma vez que os dados sobre as mortes rodoviárias relacionadas com o álcool não estavam disponíveis nestes países para toda a série temporal. Os dados de Espanha da Catalunha e do País Basco não estão incluídos. (Fonte: ETSC)
Drogas na condução. Um retrato incompleto
Os dados sobre drogas na condução são ainda mais escassos. A diversidade de substâncias torna os testes caros e demorados. Os riscos mais elevados estão associados ao consumo de anfetaminas, ao uso de várias drogas em simultâneo e à combinação de álcool com drogas.
O inquérito europeu ESRA3 ajuda a compreender comportamentos autodeclarados. Cerca de 15,4% dos condutores europeus admitiu ter conduzido após consumir álcool nos 30 dias anteriores. 16,6% acreditava ter ultrapassado o limite legal. 7,2% afirmou ter conduzido até uma hora depois de consumir drogas, sobretudo canábis.
Os homens reportam estes comportamentos com maior frequência do que as mulheres. A prevalência diminui com a idade.

Figura 3: Percentagem de condutores na UE que conduziram no prazo de 1 hora após o consumo de drogas (Fonte: ESRA3)
Quais são os riscos reais
O risco aumenta rapidamente com a taxa de álcool no sangue. Com 0,5 g por litro, o risco de acidente é 1,4 vezes superior. Com 1,0 g por litro, o risco é cinco vezes maior. Com 1,5 g por litro, o risco multiplica-se por vinte.
O álcool reduz a perceção do risco, aumenta a autoconfiança, incentiva comportamentos perigosos, como o excesso de velocidade e manobras perigosas.
Os efeitos das drogas variam consoante a substância. O consumo de anfetaminas associa-se a maior propensão para excesso de velocidade e perda de controlo da viatura. Os condutores consumidores de canábis tendem a reconhecer a sua limitação, muitos tentam compensar, conduzindo mais devagar ou aumentando a distância de segurança. Ainda assim, o risco mantém-se.
A quantificação exata do risco é difícil. As doses usadas em estudos experimentais são, regra geral, inferiores às encontradas em vítimas de acidentes. Estima-se que o risco do consumo de cocaína seja semelhante a uma taxa de álcool entre 0,5 e 0,8 g por litro. No caso das anfetaminas, equivale a 0,8 a 1,2 g por litro.
Como melhorar a Segurança Rodoviária
As razões que levam alguém a conduzir sob o efeito de álcool ou drogas são variadas.
Incluem:
- Traços de personalidade, como impulsividade e procura de sensações;
- Decisões não planeadas;
- Pressão do grupo;
- Contextos sociais;
- Preço e acesso ao álcool;
- Subestimação da dificuldade da tarefa de condução.
Entre reincidentes, este comportamento reflete muitas vezes um consumo problemático. Cerca de dois terços dos acidentes relacionados com álcool envolvem condutores reincidentes.
Não existe uma medida única eficaz. A resposta exige uma abordagem integrada.
As medidas com maior impacto incluem:
- Políticas de saúde que reduzam o consumo excessivo de álcool, como preços mínimos e impostos mais elevados;
- Redução dos limites legais de alcoolemia;
- Fiscalização visível e consistente;
- Campanhas de sensibilização que alterem normas sociais;
- Promoção de alternativas de transporte;
- Programas de reabilitação e alcoholocks para reincidentes;
- Políticas claras nas empresas, com testes e apoio aos condutores profissionais;
- Tecnologias nos veículos, como alertas de colisão, assistência à manutenção na via e deteção de fadiga.
O inquérito ESRA3 mostra um forte apoio à instalação de alcoholocks em reincidentes e à tolerância zero para recém-encartados. A tolerância zero para todos os condutores recolhe menor aceitação social.
Boas Práticas em ação
Muitos membros da Carta Europeia de Segurança Rodoviária desenvolvem iniciativas concretas nesta área. Alguns exemplos:
- Campanhas de promoção da condução sem drogas;
- Programas educativos sobre condução sob influência em escolas secundárias;
- Eventos noturnos sem álcool nem drogas;
- Terminais interativos de alcoolemia em contextos de diversão noturna;
- Ações pedagógicas que mostram as consequências da condução sob influência;
- Programas que incentivam a escolha prévia do condutor designado.
Reduzir a condução sob o efeito de álcool ou drogas salva vidas. Exige consistência. Exige dados. Exige ação coordenada. Cada decisão conta. A sua também.