
O que são bicicletas elétricas e por que a sua segurança importa?
As bicicletas elétricas, comummente designadas e-bikes, tornaram-se uma presença cada vez mais comum nas estradas e ciclovias europeias. Existem dois tipos principais: o pedelec, que fornece assistência elétrica à pedalada até aos 25 km/h, e o speed pedelec, cuja assistência se estende até aos 45 km/h. Embora ambos partilhem a designação de bicicleta elétrica, as suas implicações em termos de segurança rodoviária são distintas e merecem uma análise cuidada.
O crescimento expressivo da utilização destes veículos na última década coloca desafios novos à prevenção rodoviária. Perceber quem utiliza e-bikes, em que condições e com que consequências em caso de acidente é essencial para definir políticas eficazes de segurança rodoviária.
A expansão das bicicletas elétricas na Europa: dados e tendências
O mercado europeu de bicicletas elétricas registou um crescimento assinalável. Em 2020, uma em cada cinco bicicletas vendidas na União Europeia era elétrica. Em 2023, as vendas de e-bikes na UE ultrapassaram os 5 milhões de unidades, e as projeções apontam para que, em 2030, metade de todas as bicicletas vendidas seja elétrica.
Os Países Baixos lideram a utilização de e-bikes na Europa, seguidos pela Bélgica, Alemanha e Suíça. Este padrão está associado a uma cultura de mobilidade ciclável já consolidada e a redes de infraestrutura bem desenvolvidas.
Do ponto de vista do perfil dos utilizadores, vários fatores influenciam a adoção das bicicletas elétricas:
- Mulheres e pessoas mais velhas, que tendem a pedalar menos do que homens e jovens, são proporcionalmente mais propensas a optar por uma e-bike;
- A utilização frequente em estradas rurais e em vias urbanas com ciclovias dedicadas está também associada à preferência pela bicicleta elétrica face à convencional;
- Embora o perfil etário dos utilizadores de pedelecs seja tendencialmente mais elevado, os jovens adultos com menos de 45 anos estão a adotar progressivamente as e-bikes para deslocações pendulares e quotidianas.
Esta democratização do uso das bicicletas elétricas, abrangendo cada vez mais grupos etários e perfis de mobilidade, exige uma abordagem de segurança rodoviária igualmente abrangente.
Ciclistas e mortalidade rodoviária: um problema que persiste
Em 2023, morreram 1.918 ciclistas na Europa, representando 10% do total de vítimas mortais nas estradas. Deste número, cerca de 16% das vítimas mortais estavam a conduzir pedelecs, um valor que, segundo especialistas, está provavelmente subestimado, dado que vários países europeus não distinguem o tipo de bicicleta envolvida nos registos de acidentes.
Os países com maiores volumes de utilização de bicicleta (Países Baixos, Dinamarca, Bélgica e Alemanha) são também aqueles que registam as maiores proporções de mortos em acidentes envolvendo ciclistas. Esta correlação não deve ser lida como uma consequência direta da ciclabilidade, mas antes como um reflexo da maior exposição ao risco.
O fator etário é determinante: o risco de morte em acidente de bicicleta é consideravelmente mais elevado em pessoas com 65 ou mais anos. A menor agilidade, a diminuição das capacidades de reação e a maior fragilidade física explicam esta vulnerabilidade acrescida, aspeto que é especialmente relevante dado o perfil etário mais avançado dos utilizadores de pedelecs.
Importa ainda sublinhar que os acidentes com bicicleta, sobretudo os de veículo único, estão sistematicamente subreportados. O número real de ocorrências é, portanto, significativamente superior ao que as estatísticas oficiais refletem.
Porque é que as bicicletas elétricas apresentam maior gravidade nos acidentes?
A severidade dos acidentes é determinada, em larga medida, pelas forças cinéticas envolvidas no embate, que dependem da massa e da velocidade dos veículos. Quanto maiores as diferenças nestes parâmetros, mais graves tendem a ser as consequências para o utilizador mais vulnerável. Os ciclistas, sejam de bicicleta convencional ou elétrica, encontram-se em clara desvantagem neste contexto.
Na Dinamarca, por exemplo, estima-se que o risco de ser gravemente ferido ou morto por quilómetro percorrido é 13 vezes superior para um ciclista do que para o condutor de um automóvel ligeiro.
No que respeita às e-bikes especificamente:
- A severidade dos acidentes com pedelecs é superior à verificada com bicicletas convencionais e, em certos indicadores, também face aos speed pedelecs — em parte explicada pelo perfil etário mais avançado dos seus utilizadores;
- A maioria dos acidentes graves com e-bikes envolve colisões com veículos ligeiros de passageiros, seguida de acidentes de veículo único;
- Na União Europeia, a mortalidade entre ciclistas não diminuiu ao mesmo ritmo que nos restantes grupos de utilizadores da estrada. Em áreas urbanas, onde ocorrem 52% das mortes de ciclistas, os progressos têm sido particularmente lentos.
Estes dados reforçam a necessidade de intervenção coordenada nos planos da infraestrutura, da regulação e do comportamento dos utilizadores.
Medidas eficazes para a segurança das bicicletas elétricas
A proteção dos ciclistas, incluindo os utilizadores de bicicletas elétricas, exige uma abordagem multidisciplinar. As evidências disponíveis apontam para um conjunto de medidas com impacto comprovado na redução de acidentes e na mitigação das suas consequências:
1. Construção de ciclovias fisicamente separadas
A separação física do tráfego ciclável do tráfego motorizado é uma das medidas mais eficazes para reduzir o risco de colisão grave. As infraestruturas de qualidade não só aumentam a segurança, como incentivam mais pessoas a pedalar.
2. Redução de velocidade em zonas de tráfego misto
A diminuição dos limites de velocidade em áreas onde ciclistas e veículos motorizados partilham o espaço reduz significativamente a energia cinética envolvida em eventuais embates, com impacto direto na gravidade das lesões.
3. Promoção do uso do capacete
O capacete continua a ser uma das ferramentas de proteção individual mais eficazes em caso de acidente. A sua adoção deve ser incentivada através de campanhas de sensibilização e, em determinados contextos, de enquadramentos regulatórios adequados, em particular para os utilizadores de speed pedelecs.
4. Melhoria da visibilidade dos ciclistas
A utilização de equipamentos refletores, luzes frontais e traseiras e vestuário de alta visibilidade reduz o risco de colisões, especialmente em condições de baixa luminosidade.
5. Conceção segura de interseções e travessias
Uma parte significativa dos acidentes com ciclistas ocorre em cruzamentos. A requalificação destes espaços, com sinalização adequada, separação de fases semafóricas e visibilidade garantida, tem impacto direto na sinistralidade.
6. Redução da distração e do consumo de álcool por ciclistas
O comportamento do próprio ciclista influencia diretamente o risco de acidente. A utilização de telemóvel em andamento, o consumo de álcool e a velocidade excessiva são fatores de risco que devem ser abordados tanto através de campanhas de sensibilização como de medidas regulatórias.
Segurança rodoviária e mobilidade sustentável: duas faces da mesma moeda
O crescimento das bicicletas elétricas na Europa é, simultaneamente, uma oportunidade e um desafio. Uma oportunidade, porque representa um passo concreto para uma mobilidade mais sustentável, menos dependente do automóvel e com menor impacto ambiental. Um desafio, porque a sua massificação exige respostas proporcionais em matéria de segurança rodoviária.
Garantir que este crescimento não se traduz num aumento proporcional da sinistralidade requer ação concertada por parte de decisores políticos, planeadores de infraestrutura, fabricantes e dos próprios ciclistas. A segurança nas estradas não é um objetivo setorial, é uma condição para que a mobilidade ativa possa cumprir o seu potencial.
Fontes:
- European Commission (2025). Facts and Figures Cyclists. European Road Safety Observatory. Directorate General for Transport;
- Møller, M. & Jensen, T. C. (2024). Cyclists. ESRA3 Thematic Report Nr. 11. Technical University of Denmark;
- Slootmans, F. et al. (2024). Ongevallen met elektrische fietsen en speedpedelecs in kaart gebracht. Vias institute;
- SWOV (2022). Pedelecs and speed pedelecs. SWOV fact sheet;
- European Commission (2024). Road Safety Thematic Report – Cyclists. European Road Safety Observatory.