
Novo relatório do ETSC alerta: deslocações profissionais e casa-trabalho representam uma fatia oculta da sinistralidade rodoviária
Todos os dias, milhares de trabalhadores europeus colocam-se em risco no trânsito sem que sequer o saibam. Não estamos a falar de profissões perigosas ou ambientes de risco extremo. Estamos a falar de vendedores em visitas a clientes, motoristas profissionais, funcionários públicos, entregadores e até daqueles que simplesmente se deslocam de casa para o local de trabalho. Para muitos, o trajeto até à empresa é a parte mais perigosa do dia de trabalho.
As mortes em acidentes rodoviários relacionados com o trabalho representam uma realidade incómoda que persiste nas sombras das políticas de segurança rodoviária europeia. Enquanto as investigações incidem nos fatores de risco, como a velocidade excessiva ou o consumo de álcool, um fenómeno muito maior permanece invisível: cerca de 40% das mortes profissionais relacionadas com trabalho ocorrem em contexto de transporte.
A Dimensão Real do Problema
Os números falam por si. Em França, os acidentes rodoviários relacionados com trabalho representam 42% de todas as mortes na estrada. Na Irlanda, esta percentagem atinge os 29%. Em Itália, falamos de 16% de todos os acidentes mortais. Na Alemanha, aproximadamente 10% das mortes rodoviárias têm ligação profissional.
Mas há um pormenor crucial que desmente estas estatísticas: são números subestimados. Muito subestimados.
A realidade é que não existe uma definição europeia comum de acidente rodoviário relacionado com trabalho. Enquanto a União Europeia reconhece desde há décadas que os acidentes de trabalho carecem de regulação específica, a segurança rodoviária profissional permanece num vazio regulatório preocupante. Cada país tem a sua própria definição. Muitos nem sequer têm uma. Resultado? Os dados não comunicam entre si. As autoridades de segurança rodoviária não dialogam com as estruturas de saúde e segurança no trabalho. E as vidas perdidas desaparecem nas margens das estatísticas.
Quem Está em Risco?
Começa com o motorista profissional. Aquele condutor de pesados que passa 10, 12, 14 horas na estrada. As longas jornadas provocam fadiga. A pressão para cumprir prazos alimenta a pressa. O desconforto do assento favorece a distração. Estes não são riscos abstratos, tratam-se de realidades diárias que transformam o veículo em local de trabalho de elevado risco.
Mas o problema estende-se muito mais além. Existe o trabalhador que se desloca entre clientes. A secretária que precisa resolver assuntos fora do escritório. O técnico de manutenção a caminho de uma intervenção. Todos conduzem, muitas vezes sob pressão de tempo, sem qualquer formação específica em segurança rodoviária profissional.
Existe ainda aquele que não conduz para trabalho, mas conduz para chegar ao trabalho. O deslocado diário. O pendular. Para a maioria das pessoas em contexto profissional, o trajeto casa-trabalho-casa é mais perigoso que qualquer tarefa dentro do edifício. E ainda assim, poucos empregadores o veem como sua responsabilidade.
Por fim, há os terceiros. Os peões, os ciclistas, os utilizadores de transportes públicos que cruzam o caminho de um motorista profissional. Em algumas países, estes representam mais de um quarto de todas as mortes em acidentes onde está envolvido um condutor profissional.
O Vazio Regulamentar
Apenas 20 países, de um total de 32 membros da Rede de Avaliação de Desempenho em Segurança Rodoviária europeia, possuem uma definição nacional de acidente rodoviário relacionado com trabalho, 10 países carecem completamente de definição e 2 nem sequer responderam.
Não se trata de um detalhe administrativo, sem definição clara, como é que as forças policiais identificam um acidente como profissional? Como é que os empregadores sabem o que reportar às autoridades de segurança no trabalho? Como é que os dados podem ser recolhidos, analisados e transformados em políticas que salvem vidas?
A fragmentação é ainda mais grave no terreno. Apenas em 13 países europeus, os relatórios de polícia sobre acidentes rodoviários incluem um campo que indica o propósito da viagem. Menos de metade dos estados-membros da União Europeia. Isto significa que em dezasseis países onde foram recolhidos dados, a polícia sequer questiona se o acidente tinha natureza profissional.
Verifica-se assim que não existe sincronização entre os dados. A polícia recolhe informações sobre acidentes rodoviários. Os empregadores reportam acidentes de trabalho a autoridades de segurança ocupacional. Os seguros guardam informações sobre sinistros. Os hospitais registam admissões. Mas estes sistemas não conversam entre si, as bases de dados não se cruzam. E a visão global de um problema que afeta centenas de milhares de europeus permanece fragmentada, incompleta, invisível.
O Custo Invisível
Quando um acidente rodoviário profissional ocorre, os custos acumulam-se de formas que ultrapassam os números das seguradoras. Há a morte ou ferimentos graves. Há o luto e o trauma das famílias. Há a produtividade perdida. Há os custos de saúde. Há as indemnizações. Há o impacto nas operações da empresa. E há algo que raramente figura nas estatísticas: a responsabilidade corporativa da gestão que sabia que o risco existia.
Alguns países começam a reconhecer isto. Em Itália, desenvolveu-se um programa informático chamado Co&Si (Custos e Segurança) que ajuda as empresas a calcular o valor económico da prevenção, mudando o paradigma. Em vez de “a segurança é um custo que temos de suportar”, passa para “a prevenção é um investimento que nos devolve lucro”. Uma mudança de perspetiva simples, mas profunda.
Na Alemanha, o seguro social de acidentes de trabalho publica relatórios anuais detalhados que mostram tendências, permitem identificar setores de alto risco e fundamentam estratégias de prevenção. Na Irlanda, uma análise de processos judiciais de 2008 a 2011 revelou que 23% de todas as mortes nas estradas tinham ligação profissional. Este dado fundamental mudou a formulação da estratégia nacional de segurança rodoviária.
Em França, a estimativa é ainda mais perturbadora. 1.349 pessoas perderam a vida em 2024 em acidentes rodoviários onde alguém estava em deslocação profissional, o que significa 42% de todas as mortes nas estradas francesas.
O Que Falta Fazer
Antes de mais é necessário que seja criada uma definição europeia comum, que servirá de alicerce para tudo o resto.
Segundo, precisamos de dados. Dados reais. Dados recolhidos sistematicamente. Dados que permitam às autoridades ver o problema por inteiro, não apenas os fragmentos que cada sistema consegue capturar. Isto significa que a polícia deve registar o propósito da viagem de todos os acidentes. Significa que os empregadores devem reportar sistematicamente os acidentes profissionais. Significa que as bases de dados devem estar ligadas para criar uma imagem coerente.
É ainda preciso que as empresas reconheçam a sua responsabilidade. A legislação europeia de saúde e segurança no trabalho obriga os empregadores a gerir os riscos que surgem das atividades laborais. Mas muitos ainda não veem a condução para trabalho como tal. Existem exceções: a Suécia desenvolveu um guia completo para empregadores sobre como integrar segurança rodoviária no trabalho. A Espanha publicou orientações sobre como incorporar segurança rodoviária nas políticas de responsabilidade social corporativa das empresas. Mas estas são iniciativas isoladas, não política de Estado.
Necessita-se de liderança nos setores públicos. Quando uma câmara municipal, um ministério ou qualquer entidade pública estabelece que todos os veículos que adquire têm de ter classificação Euro NCAP de cinco estrelas, está a enviar um sinal claro: segurança é não-negociável. E este sinal afeta fornecedores, subcontratantes, e toda a cadeia de valor. O número de países europeus onde as autoridades públicas demonstram este tipo de liderança duplicou de 2017 para 2024, de 5 para 10. É um avanço, mas é insuficiente.
Formação específica e cultura de segurança precisa-se. Os motoristas profissionais necessitam de formação que vá além dos conteúdos exigidos para renovar a carta de condução. Precisam de conhecimento sobre fadiga, sobre distração, sobre técnicas de condução segura em contexto profissional. As empresas precisam de criar culturas onde a segurança não é uma obrigação fiscal, mas um valor genuíno.
Os novos regulamentos europeus obrigam a que todos os veículos novos integrem sistemas de aviso de fadiga, de assistência de emergência, de controlo inteligente de velocidade. Tratam-se de medidas positivas, mas apenas para veículos novos. E as frotas envelhecem. E alguns sistemas de aviso foram enfraquecidos por pressão industrial e por questões de privacidade. A tecnologia não substitui a responsabilidade humana, mas pode ser um aliado poderoso se bem implementada.
Reconhecer o Problema é o Primeiro Passo
Neste momento, a União Europeia está numa posição única. Tem dados suficientes para confirmar que o problema existe. Tem experiências bem-sucedidas de alguns países para demonstrar que soluções são possíveis. Tem legislação de saúde e segurança que já obriga os empregadores a gerir estes riscos. O que falta é vontade política e coordenação.
Porque é que isto importa?
Porque todos nós trabalhamos. Todos nós conduzimos ou somos passageiros. Todos nós enfrentamos o risco. A mãe que se desloca entre clientes. O pai que faz entregas nas horas livres. O avô que ainda trabalha e enfrenta o trânsito diário. Não estamos a falar de números abstractos. Estamos a falar de pessoas reais cujas vidas podem ser salvas através de políticas inteligentes, de dados fiáveis e de responsabilidade corporativa genuína.
A segurança rodoviária profissional não é um luxo corporativo. É um direito fundamental de qualquer pessoa que trabalha. É tempo de a Europa o reconhecer de prioridade.