condução telemóvel

Já todos ouvimos que usar o telemóvel ao volante é perigoso. Mas sabia que mesmo com o sistema mãos-livres, a sua capacidade de reagir ao que acontece na estrada fica seriamente comprometida? Um estudo recente publicado na revista científica PLOS ONE traz revelações importantes sobre como as conversas telefónicas afetam algo que raramente consideramos: os nossos próprios olhos.

O que os olhos têm a ver com a condução segura?

Cerca de 90% da informação necessária para conduzir é recolhida pelos nossos olhos. Parece óbvio, mas raramente pensamos em como os nossos olhos trabalham constantemente enquanto conduzimos: verificam os espelhos, detetam peões, leem sinais, antecipam perigos.

Este movimento ocular não é automático. Requer coordenação neurológica precisa e atenção focada. E é precisamente aqui que as conversas telefónicas, mesmo que sem manuseamento do telemóvel, interferem.

A experiência que mudou a perspetiva

Investigadores da Universidade de Saúde de Fujita, no Japão, desenharam uma experiência engenhosa para perceber o impacto real das conversas ao telemóvel. Pediram a 30 participantes que movessem o olhar rapidamente para alvos que apareciam no ecrã, simulando a necessidade de detetar elementos na estrada.

Os participantes fizeram isto em três situações diferentes:

  • Enquanto mantinham uma conversa telefónica;
  • Enquanto ouviam clips de áudio;
  • Sem qualquer distração adicional.

Os resultados foram inequívocos.

Os números não mentem

Quando os participantes estavam a falar ao telefone, três aspetos críticos da visão ficaram comprometidos:

  • O tempo de reação aumentou. Os olhos demoraram mais tempo a começar a mover-se em direção ao alvo visual. É como se o cérebro precisasse de mais tempo para “processar” que algo apareceu no campo de visão;
  • O movimento ocular tornou-se mais lento. Mesmo depois de começar a mover os olhos, o tempo necessário para chegar ao alvo duplicou em comparação com a condução sem distrações;
  • A precisão reduziu-se drasticamente. Os participantes demoraram mais do dobro do tempo normal a estabilizar o olhar no alvo, revelando dificuldade em fixar-se corretamente no objeto.

Mãos‑livres não significa mente livre

Durante anos, a mensagem principal focou‑se em “não manusear o telemóvel”. Mas o problema mais perigoso não são as mãos, é o cérebro.

A literatura científica já tinha mostrado que:

  • Falar ao telemóvel quadruplica o risco de acidente, seja com telefone de mão ou mãos‑livres;
  • Os efeitos podem ser comparáveis a conduzir sob efeito de álcool em termos de atrasos na resposta;
  • Conversas mais complexas e exigentes aumentam ainda mais a distração.

Este novo estudo acrescenta uma peça crítica: a conversa em si degrada a qualidade do comportamento ocular, tornando os movimentos do olhar mais lentos e menos precisos, o que significa menos capacidade para detetar:

  • Uma criança que entra na estrada pela direita;
  • Um peão que sai de trás de um carro estacionado;
  • Um objeto caído na via, sobretudo em zonas mais baixas do campo visual.

Curiosamente, os investigadores também observaram que os atrasos de reação eram particularmente marcados para alvos na zona inferior do campo visual, precisamente onde surgem muitos perigos relevantes em contexto rodoviário (pavimento, obstáculos, crianças).

E se eu apenas ouvir? Podcast, rádio, música?

Aqui há boas notícias. O mesmo estudo mostrou que simplesmente ouvir conteúdo (sem a necessidade de responder ou interagir) não afetou os tempos de reação ou a precisão visual.

A diferença está clara: ouvir é passivo, falar é ativo. É a participação ativa numa conversa que sobrecarrega o sistema cognitivo.

O que acontece no mundo real?

Traduzindo estes milissegundos de atraso para uma situação real de condução. Imaginemos que circula a 90 km/h (25 metros por segundo) e uma criança atravessa-se à sua frente:

  • 280 milissegundos (tempo médio de reação ao telefone) significa que percorre 7 metros antes de sequer começar a reagir;
  • Compare com 260 milissegundos em condução normal – uma diferença de meio metro que pode significar tudo.

E isto é apenas o tempo até começar a reagir. Precisará ainda de mover os olhos, processar o que vê, decidir o que fazer e executar a ação (travar, desviar).

Por que motivo isto acontece?

O estudo sugere que as conversas telefónicas competem pelos mesmos recursos neurológicos que a condução utiliza, particularmente nas redes frontoparietais do cérebro responsáveis pela atenção e controlo motor.

Pense no cérebro como tendo uma quantidade limitada de “banda larga” atencional. Quando está a falar ao telefone, uma parte significativa dessa banda está ocupada com a conversa, deixando menos recursos disponíveis para processar o ambiente rodoviário.

Não são só os olhos

Embora este estudo se tenha focado no comportamento visual, investigações anteriores já demonstraram que as conversas telefónicas também atrasam:

  • A pressão do pedal do travão;
  • As manobras de controlo da direção;
  • A capacidade de se manter na faixa de rodagem.

O atraso visual que este estudo documenta representa apenas a primeira etapa de uma cascata de degradação no desempenho da condução.

Mas eu faço isto há anos sem problemas…

Este é um dos pensamentos mais perigosos que podemos ter. A ausência de acidente não significa ausência de risco.

Estudos mostram que falar ao telefone enquanto conduz quadruplica o risco de acidente. Não é diferente de conduzir com uma taxa de álcool no sangue acima do limite legal.

A questão não é se consegue conduzir enquanto fala ao telefone. A questão é: consegue conduzir tão bem quanto conseguiria sem a distração? A ciência diz claramente que não.

E falar com passageiros? Também é mau?

Curiosamente, há diferenças importantes. Passageiros no carro:

  • Veem o que está a acontecer na estrada;
  • Pausam naturalmente a conversa em momentos críticos;
  • Podem até alertar para perigos;
  • A conversa adapta-se ao contexto da condução.

Ao telefone, a outra pessoa não tem consciência do ambiente rodoviário e espera uma conversa fluida e contínua.

O que pode fazer?

As soluções são mais simples do que se possa imaginar:

  • Desliguar o telefone ou colocá-lo em modo de condução antes de arrancar. A maioria dos smartphones tem esta funcionalidade nativa;
  • Deixar ir para o voicemail. Se alguém ligar, pode devolver a chamada quando parar em segurança;
  • Programar chamadas importantes para antes ou depois da viagem, não durante;
  • Usar mensagens de texto automáticas a informar que está a conduzir e responderá em breve;
  • Parar em segurança, se realmente precisar de atender ou fazer uma chamada urgente.

Em suma:

A capacidade de ver, reagir e responder ao que acontece na estrada é fundamental para a segurança, a sua e dos outros. As conversas telefónicas, mesmo através de sistemas mãos-livres, comprometem estas capacidades de formas que muitas vezes nem percebemos.

Não se trata de ser paranoico ou excessivamente cauteloso. Trata-se de compreender como o nosso cérebro realmente funciona e reconhecer que, por muito competentes que sejamos, temos limitações cognitivas reais.

Nenhuma conversa telefónica é tão importante que justifique colocar vidas em risco. E agora, com a ciência a mostrar exatamente como e porquê estas conversas nos afetam, já não podemos fingir que não sabemos.

Da próxima vez que o telefone tocar enquanto conduz, lembre-se: os seus olhos podem estar na estrada, mas a sua atenção está noutra conversa. E na estrada, essa diferença pode ser fatal.


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