
Em 2023 morreram nas estradas da União Europeia 6.209 pessoas com 65 ou mais anos: cerca de três em cada dez vítimas mortais. O dado consta do relatório Facts & Figures – Seniors, publicado pela Comissão Europeia, com dados de 2023, no âmbito do Observatório Europeu de Segurança Rodoviária (ERSO), com o contributo do NTUA, do SWOV e do KFV (Comissão Europeia). É um retrato que interessa ler em Portugal: a população está a envelhecer e o país surge acima da média europeia nos indicadores mais relevantes.
O que diz o relatório
As pessoas com 65 ou mais anos têm a segunda taxa de mortalidade rodoviária mais elevada de todos os grupos etários: cerca de 65 vítimas mortais por milhão de habitantes seniores na UE, só ultrapassada pelo grupo dos 18 aos 24 anos. O peso dos seniores no total de vítimas mortais tem vindo a aumentar: passou de 25% em 2013 para 30% em 2023.
A explicação está, em boa parte, na fragilidade física. Perante o mesmo impacto numa colisão, um corpo mais velho sofre lesões mais graves, como as fraturas da anca, e recupera mais lentamente. Esta maior vulnerabilidade às consequências de uma colisão não permite, por si só, tirar conclusões sobre a prudência dos comportamentos.
Há ainda um dado a reter: entre 2013 e 2023, as mortes nas faixas etárias dos 70 aos 84 anos desceram, mas aumentaram 22% entre as pessoas com 85 ou mais anos.
Portugal acima da média
Em 2023, Portugal registou 78,1 vítimas mortais por milhão de habitantes com 65 ou mais anos, acima da média da UE27 (65,0): a terceira taxa mais elevada da União, atrás apenas da Roménia e da Bulgária. Em números absolutos, foram 196 pessoas com 65 ou mais anos a perder a vida nas estradas portuguesas em 2023.
Há, ainda assim, uma boa notícia: entre 2019 e 2023, o número de vítimas mortais com 65 ou mais anos em Portugal diminuiu 19%, face a uma redução de apenas 4% na UE27. O caminho existe. Falta percorrê-lo com a consistência que os números exigem.
A pé e de bicicleta
Peões e ciclistas têm um peso particularmente elevado entre as vítimas mortais com 65 ou mais anos. Em 2023, 30% das vítimas mortais seniores na UE deslocavam-se a pé e 16% de bicicleta, contra 13% e 7%, respetivamente, no grupo com menos de 65 anos. Entre as mulheres com 65 ou mais anos que morreram em acidentes rodoviários em 2023, 45% deslocavam-se a pé.
Estas são médias europeias: nalguns países, o retrato é ainda mais marcado. Na Estónia e na Eslováquia, cerca de metade de todas as vítimas mortais seniores eram peões. Nos Países Baixos, na Bélgica, na Dinamarca e na Alemanha, destaca-se o peso dos ciclistas.
Onde e quando
O perfil dos acidentes fatais com seniores difere do resto da população em quatro aspetos:
- Dentro das localidades. Mais de metade das vítimas mortais seniores (52%) perderam a vida em vias urbanas, contra 33% no grupo dos menores de 65 anos;
- Nos cruzamentos e entroncamentos. 24% das mortes de seniores ocorreram em interseções, face a 16% nas outras idades;
- Em dias úteis. 73% das vítimas mortais seniores resultaram de acidentes ocorridos de segunda a sexta-feira, entre as 6h00 e as 21h59 (o intervalo classificado como diurno pelo relatório), face a 51% no grupo dos menores de 65 anos. De noite, o peso cai para 5%, contra 26%;
- Em horas pontuais. A distribuição das vítimas ao longo do dia registra dois picos: entre as 10 e as 12 horas e entre as 14 e as 18 horas.
A estes juntam-se dois dados sobre o género e o tipo de acidente. Entre os seniores, 68% das vítimas mortais são homens, uma diferença menos acentuada do que nos menores de 65 anos, onde os homens representam 81%. E mais de um terço dos condutores seniores que morreram em 2023 perderam a vida em acidentes com um único veículo e sem peões envolvidos, uma percentagem que sobe para 45% entre os condutores com 85 ou mais anos.
O que cada um pode fazer
A experiência da PRP em educação rodoviária aponta, contudo, medidas que estes números tornam pertinentes:
- Para condutores seniores: manter a aptidão para conduzir em dia e informar-se sobre os prazos de renovação da carta de condução, que passam a ser mais curtos com a idade. Considerar cursos de atualização, escolher conduzir fora das horas de ponta e familiarizar-se com os sistemas de assistência à condução (ADAS) fazem toda a diferença.
- Para todos os condutores: reduzir a velocidade dentro das localidades, redobrar a atenção nos cruzamentos e ceder o passo aos peões. Os números mostram que é ali, e nessas horas, que a vida dos mais velhos está em causa.
- Para os municípios: repensar tempos de semáforo, passeios e passadeiras à luz de quem se desloca mais devagar. Cada segundo a mais para atravessar uma rua é um segundo de segurança para quem tem 80 anos.
Prémios europeus
Os seniores tornaram-se também prioridade nos Excellence in Road Safety Awards 2025, que dedicaram uma categoria própria às pessoas mais velhas. Os finalistas desta categoria vieram da Polónia, da Áustria e da Alemanha, com projetos dedicados à mobilidade e à segurança dos mais velhos.