Acidentes-rodoviarios-continuam-a-ser-a-principal-causa-de-morte-violenta-entre-criancas-e-jovens-em-Portugal

A segurança rodoviária infantil continua a ser uma preocupação crítica em Portugal. Entre 2014 e 2023, os acidentes de transporte terrestre foram a principal causa de morte por causas externas entre crianças e adolescentes com menos de 18 anos, revelando a persistência de riscos evitáveis. Esta conclusão resulta de um estudo nacional que analisou mais de 500 autópsias forenses realizadas pelo Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses.

O peso dos acidentes rodoviários na mortalidade pediátrica

Segundo o estudo, as lesões provocadas por acidentes rodoviários representaram 38,3% das mortes pediátricas por causas externas ao longo da última década. As vítimas foram maioritariamente adolescentes do sexo masculino, refletindo padrões comportamentais de risco associados a esta faixa etária, como impulsividade, menor perceção de perigo e maior exposição à via pública enquanto condutores, ciclistas ou peões.

Estes dados confirmam também os alertas da Organização Mundial da Saúde, que identifica os acidentes rodoviários como a principal causa de morte de crianças na Europa. Em Portugal, esta realidade agrava-se com a elevada taxa de mortalidade infantil associada à circulação rodoviária, uma das mais altas da região europeia.

O Perfil das Vítimas: Quem Está Mais em Risco?

Adolescentes: O Grupo Mais Vulnerável

O estudo revela que os adolescentes (13-17 anos) representam 47,83% de todas as mortes por causas externas em menores de 18 anos, sendo o grupo etário mais afetado. Este fenómeno está diretamente relacionado com o aumento da exposição ao risco e comportamentos mais impulsivos característicos desta faixa etária.

Para jovens entre os 18 e 24 anos, a situação é igualmente preocupante. Dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária indicam que o risco de morte destes jovens em acidentes rodoviários é 30% superior ao do resto da população. Esta sobrerrepresentação torna-se ainda mais evidente quando analisamos que, em 2012, os jovens constituíam apenas 8% da população mas representaram 15% do total de vítimas de acidentes rodoviários.

Diferenças por Género

O estudo português confirma uma tendência global: 68,95% das vítimas são do sexo masculino. Esta predominância masculina mantém-se consistente em todas as faixas etárias, refletindo padrões comportamentais que incluem maior propensão para assumir riscos e maior exposição a situações perigosas.

Padrões Sazonais e Temporais

Os dados revelam padrões temporais específicos que devem orientar as estratégias de prevenção. Os acidentes ao fim de semana são responsáveis por 40% das mortes e feridos graves que vitimam condutores jovens, uma proporção significativamente superior aos 34% observados nos restantes grupos etários.

Particularmente preocupante é o facto de cerca de um terço dos acidentes mortais ou com feridos graves em jovens condutores ocorrer entre a meia-noite e as 8h da manhã, comparado com apenas 17% no resto da população. Este padrão sugere a necessidade de campanhas específicas dirigidas aos comportamentos de risco durante os períodos noturnos e fins de semana.

Sistemas de Retenção: A Proteção que Falha

Dados Alarmantes sobre a Utilização Incorreta

Um dos aspetos mais preocupantes da segurança rodoviária infantil em Portugal prende-se com a utilização inadequada dos sistemas de retenção para crianças (SRC). O mais recente Estudo de Observação do Transporte de Crianças, realizado pela APSI em 2024, revela que: apenas 59% das crianças estão devidamente protegidas quando viajam de carro.

Outros dados do estudo mostram que cerca de 14% das crianças viajam sem qualquer proteção (ao colo ou à solta) em autoestradas, sendo que no grupo das crianças entre os 0 e os 3 anos esta percentagem é de 6%. Embora cerca de 86% das crianças use algum sistema de retenção, 31,5% apresentam erros de utilização.

A Importância da Orientação Correta

A legislação portuguesa é clara: crianças com menos de 12 anos e menos de 135 cm devem viajar com um Sistema de Retenção para Crianças homologado e adaptado ao seu peso e tamanho. No entanto, a implementação prática desta medida continua a ser deficiente.

Particularmente preocupante é o cumprimento da recomendação de que as crianças até aos três anos devem viajar voltadas para trás, que é seguida por apenas 38% das famílias. Esta orientação é crucial, pois em caso de acidente frontal, a posição voltada para trás distribui melhor as forças do impacto, protegendo a cabeça, pescoço e coluna vertebral da criança.

Atropelamentos: 

O Maior Risco para as Crianças Mais Novas

Segundo a ANSR, crianças até aos 14 anos apresentam maior número de mortos e feridos graves resultante de atropelamentos, que assumem um peso muito mais significativo do que para outros utentes: 37,8% versus 16,2% de mortos em atropelamentos e 46,8% versus 17,7% de feridos graves.

Esta vulnerabilidade é particularmente acentuada nas zonas urbanas, onde mais de metade (53%) das vítimas mortais, 74% dos feridos graves e 76% dos feridos ligeiros resultam de acidentes que ocorrem dentro das localidades. A representatividade das crianças vítimas dentro das localidades é consideravelmente superior à dos restantes grupos etários.

Fatores de Risco Específicos

As características físicas e cognitivas das crianças contribuem significativamente para o risco de atropelamento. A pequena estatura, fragilidade e incapacidade para reconhecer perigo tornam as crianças mais suscetíveis a acidentes. Além disso, estudos comportamentais mostram que 1 em cada 5 estudantes do ensino secundário são observados desatentos usando telemóveis ou ouvindo música ao atravessar ruas em zonas escolares.

A Posição de Portugal no Contexto Europeu

Progressos e Desafios

Apesar dos progressos significativos nas últimas décadas, Portugal continua a enfrentar desafios importantes. Em 2013, o grupo etário ≤14 anos registou a menor taxa de mortalidade (4 mortos por milhão de habitantes), cerca de 15 vezes inferior à do resto da população. A nível europeu, Portugal encontra-se entre os cinco países com as taxas mais baixas de vítimas mortais com idade inferior ou igual a 14 anos.

No entanto, quando analisamos dados mais abrangentes, a situação é menos favorável. Em 2019, a taxa de mortalidade por acidente rodoviário até aos 19 anos em Portugal é quase o dobro da taxa da União Europeia. Esta discrepância sugere que, embora as crianças mais novas estejam relativamente protegidas, os adolescentes continuam a enfrentar riscos elevados.

Comparação Internacional

Entre 2011 e 2020, mais de 6.000 crianças até 14 anos morreram nas estradas europeias, demonstrando que este é um desafio continental que exige cooperação e partilha de melhores práticas entre países.

O Papel das Diferentes Entidades na Prevenção

Família e Cuidadores

Os pais e cuidadores têm a responsabilidade primária de garantir a segurança das crianças. Isto inclui:

  • Utilização consistente de sistemas de retenção em todas as viagens, independentemente da distância;
  • Educação sobre comportamentos seguros como peões e futuros condutores;
  • Supervisão adequada especialmente em crianças mais novas.

Escola e Comunidade Educativa

As escolas desempenham um papel crucial na educação rodoviária, devendo integrar nos currículos programas de segurança rodoviária que abordem tanto os aspetos teóricos como práticos da circulação segura.

Autoridades e Poder Público

As autoridades têm a responsabilidade de criar e manter infraestruturas seguras, implementar legislação adequada e garantir o seu cumprimento através de fiscalização eficaz.

Recomendações para uma Estratégia Nacional Integrada

Prioridades Imediatas

  1. Reativação do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes, que terminou em 2020;
  2. Intensificação das campanhas de sensibilização sobre a utilização correta de sistemas de retenção;
  3. Implementação de medidas específicas para reduzir os atropelamentos em zonas urbanas;
  4. Desenvolvimento de programas específicos para jovens condutores.

Estratégias a Médio Prazo

  1. Criação de uma estratégia interministerial integrada que envolva saúde, educação, transportes e segurança;
  2. Investimento em infraestruturas especificamente desenhadas para a proteção infantil;
  3. Desenvolvimento de tecnologias que melhorem a deteção de crianças pelos condutores;
  4. Formação contínua de profissionais que trabalham com crianças.

Visão a Longo Prazo

O objetivo deve ser alcançar a “Visão Zero” – zero mortes evitáveis de crianças nas estradas portuguesas. Tal exige uma mudança cultural profunda que coloque a segurança infantil no centro das políticas de mobilidade.