
Vídeos de risco nas redes sociais influenciam o comportamento rodoviário?
Uma velocidade extrema filmada a partir do interior de um automóvel, um motociclo a circular apenas sobre a roda traseira ou alguém agarrado ao exterior de um transporte em movimento: nas redes sociais, estes comportamentos podem aparecer entre uma publicação de um amigo e um vídeo de entretenimento, apresentados em poucos segundos e acompanhados por gostos, comentários e recomendações automáticas.
Para quem vê, o risco nem sempre é o elemento mais visível, uma vez que a atenção pode concentrar-se no veículo, na perícia aparente, na reação dos ocupantes ou no número de visualizações, já que muitas vezes, a publicação termina antes da colisão, da queda, da sanção ou da lesão, ocultando as consequências.
Um novo estudo do Instituto Vias analisou a presença destes conteúdos nas redes sociais e a sua relação com os comportamentos rodoviários de jovens adultos belgas. Os resultados mostram uma associação clara: quanto maior é a exposição declarada a vídeos de risco, maior tende a ser a frequência de comportamentos de risco e de sanções rodoviárias reportadas pelos participantes.
O estudo não demonstra, contudo, que ver um vídeo provoque diretamente um determinado comportamento: a relação pode funcionar nos dois sentidos, isto é, os conteúdos podem influenciar atitudes, mas quem já procura sensações fortes ou adota comportamentos de risco também pode revelar maior interesse por esta tipologia de conteúdo.
Mais de um em cada três jovens vê estes vídeos todas as semanas
O estudo do Instituto Vias combinou duas componentes: a primeira consistiu num inquérito realizado entre junho e setembro de 2025 a jovens adultos residentes na Bélgica, com idades entre os 18 e os 26 anos, que utilizavam redes sociais pelo menos uma vez por semana.
A análise final considerou 918 participantes recrutados através de um painel de estudos de mercado, em que a amostra foi estratificada e posteriormente ponderada segundo a região e o género, procurando aproximá-la da população belga nesta faixa etária.
Entre os participantes:
- 13% viam vídeos de comportamentos rodoviários de risco diariamente ou quase todos os dias;
- 24% encontravam estes conteúdos entre uma e três vezes por semana;
- cerca de um quarto via-os entre uma e três vezes por mês;
- apenas 13% afirmavam nunca ter contacto com este tipo de publicação.
No total, 37% estavam expostos pelo menos semanalmente. Entre os homens, a proporção atingia aproximadamente 46%, face a 27% entre as mulheres. TikTok e Instagram surgiram como as principais plataformas de contacto com estes conteúdos.
A exposição também variou entre regiões: foi mais elevada na Valónia e mais baixa na Flandres. Trata-se de um resultado relativo ao contexto belga, que não deve ser automaticamente transposto para Portugal ou para outras populações.
O algoritmo aprende com cada interação
Os algoritmos de recomendação funcionam com base em vários sinais, basicamente, tudo o que fazemos na plataforma conta: ver um vídeo até ao fim, repetir a visualização, comentar, partilhar ou colocar um gosto pode indicar que aquele conteúdo despertou interesse, mesmo quando a reação do utilizador não representa aprovação do comportamento mostrado.
O estudo identificou uma associação entre a frequência de interação nas redes sociais e a exposição a vídeos de comportamentos rodoviários de risco: isto é, quanto mais uma pessoa interagia com publicações, maior era a probabilidade de voltar a encontrar conteúdos semelhantes.
E é assim que se forma uma espécie de ciclo vicioso: a pessoa vê um vídeo, interage e recebe novas recomendações sobre o mesmo tema. Se o processo se repetir, o conteúdo excecional pode começar a parecer frequente e socialmente aceite.
Tal não significa que toda a gente fique presa numa “bolha de filtros” nem que o algoritmo tenha sempre o mesmo efeito. Mostra, porém, que o facto de vermos muito um comportamento online não quer dizer que seja assim tão comum na vida real, dependendo ainda da capacidade de captar atenção e gerar envolvimento.
Velocidade extrema, acrobacias e encontros ilegais
A segunda componente do estudo analisou 80 vídeos publicados no Instagram, TikTok e YouTube. Destes, 32 provinham do Instagram, 22 do TikTok e 26 do YouTube. Quase todos tinham sido gravados na Bélgica e a maioria fora publicada por perfis individuais.
Os conteúdos mostravam sobretudo:
- velocidades muito elevadas na via pública;
- manobras de equilíbrio de motociclos sobre a roda traseira, conhecidas como wheelies;
- encontros automóveis ilegais associados ao tuning;
- pessoas agarradas ao exterior de comboios ou elétricos em movimento.
Estes resultados descrevem o conjunto de vídeos recolhido, não todo o conteúdo existente nas plataformas. As palavras utilizadas na pesquisa e os próprios sistemas de recomendação podem ter tornado algumas categorias mais fáceis de encontrar do que outras. Comportamentos como conduzir sob a influência do álcool, por exemplo, podem ser relevantes para a segurança rodoviária, mas menos fáceis de reconhecer num vídeo curto.
Ainda assim, a amostra ajuda a perceber que tipo de risco tem maior capacidade de se transformar em espetáculo: comportamentos visualmente intensos, fáceis de reconhecer e compatíveis com narrativas de velocidade, domínio do veículo ou transgressão.
As consequências raramente entram no enquadramento
Apenas 9 dos 80 vídeos mostravam consequências negativas visíveis: 4 incluíam uma intervenção policial, 3 apresentavam uma queda e os restantes correspondiam à mesma ocorrência, divulgada por 2 meios de comunicação, na qual era referida a morte de uma das pessoas filmadas.
Na maioria das publicações, portanto, o comportamento aparecia separado daquilo que teria acontecido a seguir.
E é precisamente essa ausência que distorce a perceção do risco. Uma velocidade extrema filmada a partir do habitáculo mostra o velocímetro a subir, o ruído do motor e a reação dos ocupantes. Não mostra necessariamente a redução do campo visual, o aumento da distância de paragem, a dificuldade em responder a um imprevisto ou a energia que terá de ser absorvida numa colisão.
O que as pessoas escreviam nos comentários mudava bastante dependendo do que o vídeo mostrava: quando o vídeo mostrava uma consequência negativa, surgiam com frequência referências à responsabilidade individual ou ao “karma”. Noutros casos, havia reações de incentivo, mas também comentários neutros sobre o modelo do veículo, o local ou aspetos técnicos.
Tentar classificar automaticamente o tom dos comentários revelou-se pouco fiável. Abreviaturas, erros ortográficos, ironia, sarcasmo e mistura de línguas dificultaram a classificação por algoritmos. A limitação é relevante: um comentário aparentemente positivo pode ser irónico, enquanto uma expressão negativa pode dirigir-se à qualidade do vídeo e não ao comportamento apresentado.
Ver não significa imitar, mas pode alterar a norma percebida
A maioria dos jovens inquiridos tinha uma opinião negativa sobre os comportamentos rodoviários apresentados. Perante um vídeo publicado por um amigo, 56% afirmaram que não reagiriam, cerca de 23% colocariam um gosto ou utilizariam um emoji, 19% escreveriam um comentário e apenas 2,4% partilhariam a publicação no próprio perfil.
Quando a publicação era atribuída a um influenciador popular, a ausência de reação subia para 71%. A proximidade social parece, assim, ter relevância: os jovens mostravam-se mais disponíveis para interagir quando o autor era um amigo.
Apesar da rejeição maioritária, os participantes expostos com mais frequência declararam mais comportamentos de risco, incluindo excesso de velocidade, utilização do telemóvel durante a condução, desrespeito pelo sinal vermelho ou disputas com outros utentes na via pública. Também reportaram um número superior de sanções rodoviárias.
Os dados apontam para três fatores que parecem estar por trás desta ligação (e que vale a pena perceber melhor):
- Atitudes: o comportamento pode passar a ser avaliado de forma menos negativa;
- Norma subjetiva: a pessoa pode formar a perceção de que amigos ou outros grupos relevantes aceitam esse comportamento;
- Controlo comportamental percebido: o comportamento pode parecer mais fácil de executar ou controlar do que realmente é.
No fundo, são estes três aspetos que acabam por moldar aquilo que uma pessoa decide fazer: se uma manobra aparece repetidamente, recebe reações favoráveis e é apresentada sem consequências, pode tornar-se mais familiar, aparentemente mais aceite e menos difícil.
A familiaridade, contudo, não reduz o risco físico. Mesmo que um condutor esteja convicto de que controla o excesso de velocidade, continua limitado pelo tempo de reação, pela distância disponível, pela aderência e pela possibilidade de surgir um acontecimento que não consegue antecipar.
A associação não prova causalidade
Os próprios autores sublinham que o desenho do estudo não permite concluir que a exposição causa diretamente comportamentos de risco.
O inquérito observou os participantes num único momento e baseou-se em informação autodeclarada. Não acompanhou a evolução das mesmas pessoas ao longo do tempo, nem mediu diretamente o comportamento através de dados dos veículos ou de observação.
Existem, por isso, várias interpretações possíveis: ver repetidamente estes vídeos pode contribuir para normalizar o risco. Em sentido inverso, jovens que já adotam comportamentos perigosos podem procurar, apreciar ou receber mais conteúdos semelhantes. Ambas as dinâmicas podem ocorrer simultaneamente e ser reforçadas pelos algoritmos.
Para podermos dizer com mais confiança que há uma causa-efeito aqui, precisávamos de estudos que acompanhassem as mesmas pessoas durante meses ou anos. Também seria útil recorrer a medidas mais objetivas e analisar separadamente diferentes comportamentos, como o excesso de velocidade ou a utilização do telemóvel ao volante.
A conclusão rigorosa não é que os vídeos “transformam” automaticamente jovens em utentes perigosos, mas que existe uma ligação que surge com regularidade suficiente para não ser ignorada, principalmente do ponto de vista psicológico, razão mais do que suficiente para ser acompanhada.
As plataformas também fazem parte do ambiente de risco
O Instituto Vias divide as recomendações em dois ângulos distintos que se completam: a primeira, designada S-frame, atua sobre o sistema em que as escolhas são feitas. Neste caso, inclui as plataformas, os algoritmos, a moderação e as regras de acesso.
Entre as medidas propostas encontram-se:
- reduzir a recomendação de conteúdos que glorifiquem comportamentos rodoviários de risco;
- remover publicações ou perfis que violem as regras ou promovam infrações;
- associar avisos ou mensagens de segurança a determinados vídeos;
- tornar mais rigoroso o controlo de quem acede a estes conteúdos, especialmente os mais novos;
- apoiar entidades especializadas na identificação e sinalização de conteúdos;
- utilizar as próprias imagens como prova quando documentem infrações, nos termos aplicáveis.
A moderação exige alguma prudência, já que nem todos os vídeos que mostram risco o promovem: uma notícia, uma ação educativa ou um conteúdo de prevenção pode utilizar imagens semelhantes para explicar as consequências. É assim necessário perceber o que está por trás deste (contexto, intenção e forma de apresentação), antes de remover qualquer conteúdo.
Na União Europeia, o Regulamento dos Serviços Digitais, conhecido pela sigla DSA, reforçou as obrigações das grandes plataformas na identificação e redução dos riscos que afetam o sistema como um todo. As orientações da Comissão Europeia para a proteção de menores, publicadas em 2025, recomendam ainda alterações aos sistemas de recomendação para reduzir a exposição a conteúdos prejudiciais e travar o efeito de ‘espiral’ em que o algoritmo vai sugerindo vídeos cada vez mais extremos.
Ensinar a reconhecer o que o vídeo não mostra
A segunda perspetiva, denominada I-frame, procura reforçar a capacidade individual para interpretar e resistir a conteúdos potencialmente prejudiciais.
A literacia mediática aplicada à segurança rodoviária deve ir além do conselho genérico para “não imitar”, há que ajudar os jovens a reconhecer como um vídeo foi construído, que informação ficou fora do enquadramento e de que forma as reações visíveis podem influenciar a perceção daquilo que é normal.
Perante um conteúdo deste tipo, há perguntas simples que podem ajudar a ver o vídeo de outra forma, com mais ceticismo:
- O vídeo mostra as consequências ou termina antes delas?
- A manobra ocorreu numa via pública e colocou terceiros em risco?
- Os comentários representam a opinião da maioria ou apenas das pessoas que decidiram interagir?
- A repetição resulta da frequência real do comportamento ou das recomendações da plataforma?
- Colocar um gosto, comentar para criticar ou rever o vídeo poderá aumentar a sua distribuição?
As famílias, as escolas e os instrutores de condução podem contribuir para esta leitura. Não se trata de fiscalizar o que os jovens veem, o que é impossível e contraproducente, a ideia é que estes consigam perceber o que o vídeo esconde e por que razão lhes apareceu no feed.
As redes sociais também podem prevenir
A abordagem passa por recorrer às mesmas plataformas que difundem conteúdos de risco, usando-as para promover comportamentos mais seguros. O estudo recorda experiências em que vídeos breves, didáticos e adaptados à linguagem de cada rede conseguiram chegar a públicos jovens.
Gostos, partilhas, visualizações e comentários não são, por si só, sinónimos de mudança de comportamento. Uma campanha pode tornar-se viral e ser bem recebida através de humor ou sarcasmo. O que se deve perceber é se as pessoas entenderam a mensagem e, consequentemente, mudaram o que pensam ou fazem.
Não faz sentido colocar a prevenção ao lado de conteúdos espetaculares e esperar o mesmo desempenho: as mensagens precisam de explicar o risco sem o refletir de forma apelativa, adaptando o formato a cada plataforma e clarificando o que pode ser feito de forma diferente.
A ideia é simples: estar onde os jovens estão, mas sem fazer da parte proibida o que perdura na memória.
Saiba mais sobre Jovens
Fontes
- Dons, E., Feys, M., Laurant, S. e Bas, S. (2026). Utilisation des réseaux sociaux et comportements à risque dans la circulation – Rapport final. Bruxelas: Instituto Vias. Relatório n.º 2025-R-19-FR.
- Instituto Vias — Les réseaux sociaux ont un impact négatif sur le comportement routier des jeunes
- Comissão Europeia — Orientações para a proteção de menores ao abrigo do Regulamento dos Serviços Digitais